sexta-feira, 29 de agosto de 2014

.. escapando do barulho sem sentido


...os filmes da Marvel são normalmente celebrados por suas cenas de ação ou pelos roteiros espirituosos, mas o vídeo abaixo foca nos momentos mais sutis...


https://www.youtube.com/watch?v=Hu_V49gZN9U




sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sensações semelhantes


(...) Quando a vitrola e o iPad chegaram à minha casa, na mesma noite, semana passada, me senti como um anfitrião recebendo convidados muito díspares para jantar: temi que se desentendessem.
Coloquei-os lado a lado, sobre um móvel da sala: a tia velha, saindo do fundo de um armário, após vinte anos de hibernação na casa do meu sogro; o "enfant terrible", recém-chegado de um shopping, nascido, quem sabe, há menos de um mês.
Constatando suas diferenças, num arroubo napoleônico, eu disse a mim mesmo: "Do alto desta estante, dois séculos me contemplam!"
A vitrola é a epítome do século 20, era da mecânica: engrenagens, correias, a agulha de metal, feita para percorrer as ranhuras do vinil.
Cada música, uma faixa: concreta, visível, tangível, até. Cada disco, dois lados, A e B, como o mundo de então, dividido entre americanos e russos, mocinhos e bandidos, o pop e o underground, Arena e MDB, Globo e SBT.
Um tempo em que uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra coisa. Ponto.
Na lateral do toca discos, o acabamento imitando madeira: mais do que mero adorno, um tributo que a modernidade precisava pagar à tradição, naquela época em que o novo ainda tinha que buscar legitimação no passado. (Lembro-me dos assentos vermelhos da Viação Cometa, onde lia-se: "Esta poltrona é revestida do mais nobre dos materiais: couro legítimo". Penso nas sandálias Havaianas, cujas tiras e sola imitam, respectivamente, o trançado do tecido e a superfície de palha dos chinelos japoneses em que se inspiraram).

Já o iPad, como os outros "is" da Apple, não busca legitimar-se na tradição. O iPhone não imita o telefone, o iPod não finge ser um walkman, nem o tablet é um computador em miniatura.
(Não é sugestivo que a empresa de Steve Jobs chame-se Apple e que, no logotipo, a maçã apareça mordida, evocando o primeiro ato do Homem contra Deus, e, portanto, contra a tradição?).
Trajando sua capa de borracha preta, o iPad tem ares de cowboy futurista. Seus únicos pertences são o laço, perdão, o cabo de energia, com o qual captura a eletricidade de que se alimenta, e o lenço sintético, usado para remover de sua tela cristalina as eventuais máculas mundanas.
Não precisa de discos nem disquetes, sequer tem entrada USB: recolhe do ar as músicas, filmes, livros e jogos que, invisíveis, pairam sobre nossas cabeças.
No dia em que os dois aparelhos chegaram, achei que o tablet ocuparia todo o espaço, silenciando a vitrola. O iPad, de fato, me conquistou, mas quanto mais me perdia por seus labirintos virtuais, mais compreendia o encanto da ultrapassada solidez dos discos.
Quando a agulha toca a superfície do vinil e, segundos antes do início da música, aquele chiado toma conta da sala, é como se eu desse um trago num cigarro, depois de anos e anos sem fumar. Podem dizer que é só poeira, estática e nostalgia, que seja, mas o crepitar funciona como um discreto acalanto, um leve afago vindo do passado, de um tempo em que uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra coisa e havia apenas dois lados, A e B, nessa deslumbrante confusão em que o mundo se transformou. (Antônio Prata, na FolhaSP)

domingo, 10 de outubro de 2010


Sinal dos Tempos

na FolhaSP, 7 de setembro, 2010: A felicidade custa R$ 11 mil

Para saber até que ponto dinheiro compra felicidade, estatísticos analisaram um banco de dados gigantesco nos EUA. Descobriram um valor a partir do qual mais riqueza não significa mais bem-estar: R$ 11 mil por mês.
"Uma renda pequena exacerba as dores emocionais associadas a problemas como divórcio, doença ou solidão", diz Daniel Kahneman, da Universidade Princeton, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2002 e coautor da nova pesquisa publicada na revista científica "PNAS".
Para ser feliz, então, o importante não é ser rico, mas sim não ser pobre, revelam entrevistas feitas com mais de 450 mil americanos.
A pesquisa funciona assim: entrevistadores pedem que as pessoas relatem a frequência com que se sentiram felizes ou sorridentes recentemente. Perguntam o mesmo com relação ao estresse.
Pedem também que, em uma escala de zero a dez, digam o quanto estão satisfeitas com as suas vidas -a "nota" média dada pelas pessoas foi de 6,76.
Cruzam, então, as respostas obtidas com dados sobre a vida dos entrevistados.

SOLIDÃO AMIGA DO PEITO
Assim, eles descobriram, por exemplo, que gente solitária se sente muito infeliz até em comparação com quem sofre de um problema crônico de saúde.
Ter filhos, por outro lado, traz felicidade. Mas, curiosamente, em média o efeito é menor do que o de ter um plano de saúde- ao menos em países em que o sistema público de hospitais é ruim, como os EUA e talvez o Brasil.
Surpreende também a correlação entre envelhecer e se sentir mais feliz. Aparentemente, os anos fazem com que as pessoas aprendam a lidar com as dificuldades.
O fator campeão de bem-estar, porém, é ser uma pessoa religiosa. Angus Deaton, também de Princeton, esboçou uma explicação para a Folha sobre isso.
"Quem vai à igreja faz amigos por lá, e isso tem um impacto muito bom. A religião também ajuda os fiéis a entender algumas questões mais difíceis da vida, e isso pode servir de apoio em tempos difíceis. Além disso, muitas igrejas oferecem cuidado médico ou apoio social."
A fé é o único fator que consegue até ganhar do dinheiro na busca pela felicidade.
O valor de R$ 11 mil reais, claro, serve como indicador, mas é bom ter em mente que, como ele se refere aos Estados Unidos, uma margem de erro precisa ser levada em consideração ao adaptá-lo ao Brasil -onde, ao menos em algumas cidades, o custo de vida pode ser bem diferente.
"Nós sabemos, por exemplo, que os latino-americanos costumam se sair bem em medições de felicidade", recorda Angus Deaton.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

"Ocasal Macbeth"
VOCÊ JÁ leu ou viu a peça "Macbeth", de Shakespeare? Você lê clássicos assim não apenas pelo deleite estético (gosto de ler), mas pra saber quem você é.
Em épocas de conversa fiada sobre "nativos digitais", onde muita gente fica "fazendo vento" falando de como os jovens "evoluíram" porque olham pra telas de computador e falam amenidades no celular o tempo todo, eu, como cético que sou, prefiro fazer os jovens lerem Shakespeare.
Eu sei que tem uma turminha por ai que diz que não se pode comparar Shakespeare com, digamos, "poemas neandertais". Mas, eu, que não respeito a "nova censura", comparo e digo: Shakespeare é melhor.
Outra coisa: se você é um frequentador de jantares inteligentes, dou uma dica. Nunca fale mal de Shakespeare, ou qualquer outro clássico, porque se tiver alguém ali que não seja "fake" vai saber que você é um bobo. Você passa, Shakespeare fica. Mas, vamos ao que interessa.
Na peça, Macbeth, um cavaleiro medieval, decide matar seu rei porque quer tomar seu lugar e acaba desgraçado e morto. Há aí, entre tantas outras coisas, três questões que valem a pena se você quiser saber o que é um ser humano.
Para dizer isso, eu pedirei ajuda a outro gigante, G. K. Chesterton (século 20). Aliás, recomendo fortemente a leitura da recém-publicada coletânea de seus ensaios, "O Tempero da Vida e Outros Ensaios", da editora Graphia. Nessa coletânea, Chesterton comenta no ensaio "Macbeths" o casal Macbeth da peça homônima de Shakespeare.
Uma primeira questão são as qualidades (ou "competências" -detesto essa palavra!) de Macbeth: como homem corajoso e inteligente que é se destaca dos outros em batalha. E por isso ganha títulos de nobreza. Mas Macbeth se perguntará: sou melhor do que os outros, por que não posso ser eu o rei?
Quem nunca se sentiu "injustiçado" pelo destino? Entra em cena sua ambição. Hoje em dia, nessa época brega em que vivemos, talvez Macbeth pudesse ser modelo de "liderança" em workshops de recursos humanos. Mas, Shakespeare não era brega.
Outra questão é sua relação com o sobrenatural: as feiticeiras o alertam para o destino de "sucesso" que o espera. As crenças religiosas sempre serviram para nos fazer crer que somos "acompanhados" por alguém. De novo, na época brega em que vivemos, talvez se diria que Macbeth acreditou que o universo conspiraria a seu favor.
Pobre idiota é aquele que não vê que o destino é sempre contra nós porque somos mortais.
Mas fica uma questão: qual a medida certa da ambição? Quantos de nós já moveram mundos para ao final se verem na condição de Macbeth no quinto ato: "A vida é um conto contado por um idiota, cheio de som e de fúria, significando nada".
O que adianta ganhar o mundo se você perdeu sua alma? Alguns, cínicos, diriam: quem precisa de alma quando temos grana? Essa resposta merece um texto à parte...
Outra questão é o famoso poder da Lady Macbeth sobre o marido. Para muitos especialistas, ela teria sido a causa definitiva para seu marido decidir assassinar o rei Duncan da Escócia. A análise de Chesterton é interessante porque aponta um traço da relação mulher-homem típica da vida real.
Qual relação? Sabe-se que num dado momento Macbeth entra em crise e recua na certeza de cometer o assassinato. Sua esposa, então, o convence a continuar no projeto, "motivando-o" da forma correta. E qual é essa forma? Desafiando sua virilidade e coragem.
Aqui Shakespeare põe o dedo na ferida: o homem morre de medo de ser fraco diante da mulher. Chesterton defende Lady Macbeth da acusação comum de ser "pouco feminina" dizendo, com razão, que ela é sim muito feminina no modo de conduzir seu marido para o que ela quer: que ele tome o trono da Escócia como prova de sua coragem e virilidade. Mentiras bonitinhas à parte, nada mudou: ou o homem é "forte" ou não vale nada.
Quando você não souber mais onde parar em sua ambição, lembre de Macbeth. Quando você se sentir um miserável porque um simples olhar feminino lhe destrói, lembre de Macbeth. Quando você sentir que a vida é um "conto idiota", lembre de Macbeth.
(Luiz Felipe Pondé, na FOLHA).

domingo, 12 de setembro de 2010



"CELULARES, PRIVADAS E 'UNIVERSOS PARALELOS'"


Em abril passado os mastigadores de números da ONU surpreenderam o mundo ao mostrar que na Índia (1,1 bilhão de habitantes) só 31% da população tinha acesso ao saneamento básico, enquanto 45% dos indianos tinham celulares. Privada x celular seria um indicador daquilo que o colunista americano Roger Cohen chamou de "universos paralelos".
A Pnad de 2009 mostrou uma situação parecida em Pindorama. Dos 190 milhões de brasileiros, 78 milhões não têm acesso ao saneamento, enquanto há no país 162 milhões de celulares. (Como há pessoas que têm mais de um aparelho, esse número não pode ser diretamente associado à população.)
É possível que essa comparação seja um fútil exercício estatístico, mas a ideia dos "universos paralelos" é estimulante. O cidadão mora em Itaboraí (RJ), não tem latrina, mas fala com a avó em Tauá, no interior cearense. Os serviços de comunicações, privatizados, expandem-se com mais vigor, e muito maior rentabilidade, que o saneamento estatal. Ademais, não se conhece caso de pessoa que tenha trocado saneamento por celular.
O cidadão com celular entra num universo onde pode se informar e reivindicar melhores serviços públicos. (Mesmo sabendo-se que 82% dos celulares brasileiros são pré-pagos.)
O mundo de "universos paralelos", com mais celulares do que privadas, torna-se chocante quando se vê a expansão mundial do mercado de água engarrafada. No próximo ano ele valerá US$ 86 bilhões, 51% acima da cifra de 2006.
A degradação (ou o medo) da qualidade da água da torneira criou um hábito regressivo. No século 19 o andar de cima de Londres consumia água encanada. Quem a comprava a granel era a patuleia, pois as fontes públicas espalhavam cólera.
O Brasil é o quarto mercado consumidor de água engarrafada, depois dos EUA, México e China. Como a própria associação das empresas do setor reconhece, há marcas de "mineralizadas" que são apenas água da torneira (tratada com dinheiro da Viúva) enfeitada com alguns sais.

Elio Gaspari, na FOLHASP, 12.9.2010